“O
consumo de luxo virou válvula de escape para frustrações”, diz Lipovetsky
Filósofo francês especializado no mercado de
luxo analisa o fenômeno no Brasil em conferências no Rio e São Paulo
Os movimentos do consumo de luxo no mundo.
Esse é o principal foco de observação e análise do filósofo e sociólogo francês
Gilles Lipovetsky que está novamente no Brasil para expor suas ideias durante a
conferência “The New World of Luxury”, que acontece nos dias 15 e 16 em São
Paulo e nos dias 21 e 22, no Rio de Janeiro. Convidado por Claudio Diniz, da
Maison du Luxe, Lipovetsky falará sobre as novas perspectivas desse mercado,
com foco no Brasil, País onde, para ele, “a ascensão da classe média e o grande
interesse de todas as classes sociais pela aparência estimula o consumo de
luxo, mas também gera distorções e problemas na sociedade”.
A polêmica ganha reforço com Diniz, que
aproveitará a oportunidade para lançar o livro “O Mercado do Luxo no Brasil:
Tendências e Oportunidades”, pela editora Seoman. “No Brasil ainda impera o
‘Mulheres Ricas’ ( reality show exibido pela rede Bandeirantes, no início
de 2012 ), com muito logotipo aparecendo e exibicionismo. Na Europa, isso
é cafona, vulgar”, diz. “O brasileiro ainda precisa das roupas e acessórios de
marca para marcar posição na sociedade, mas luxo não é o ter, mas o ser. O
verdadeiro luxo é o conhecimento, o que você não compra, precisa de tempo para
adquiri-lo”, completa.
Na conferência ainda serão discutidas
questões como gestão de fortunas no mundo contemporâneo, captação e treinamento
de profissionais para o mercado do luxo, e a força do Nordeste brasileiro nesse
segmento.
Abaixo, uma prévia das ideias de Gilles Lipovetsky que serão apresentadas
durante o evento.
iG: Como o senhor vê o desenvolvimento do
mercado de luxo no Brasil?
Gilles Lipovetsky: No Brasil há dois fatores muito importantes que
estimulam o crescimento do mercado de luxo: a ascensão da classe média e o
grande interesse por questões ligadas à aparência – a ver o número de
academias, cirurgias plásticas e produtos de beleza consumidos. Mas esse fator
também gera distorções e problemas na sociedade, porque tanto a classe alta
quanto os mais pobres conhecem e desejam as marcas de luxo e, para tê-las, alguns
podem partir para a delinquência, o crime. Antes os bandidos atacavam as
pessoas porque precisavam de dinheiro para sobreviver, hoje porque querem ter
roupas e carros de luxo para se exibir ( vide a chamada ‘ gangue dos playboys ’,
presa recentemente em São Paulo ).
iG: O Brasil poderá vir a ter marcas de luxo
próprias?
Lipovetsky: Estou convencido que sim. Talvez não uma marca de luxo
histórica, como Hermès ou Chanel, mas por que não algo como a Armani, criada na
década de 70, que preza pela qualidade e criatividade? Mas isso não deve
acontecer em um ou dois anos, é um processo de mais de dez anos para se firmar.
Além disso, é possível pensar em formas híbridas de se desenvolver o luxo
localmente, como fez a Hermès na China, que criou uma marca própria para aquele
mercado, com parcerias locais.
iG: Em que áreas o senhor acredita que
estejam nossos potenciais para disputar espaço nesse mercado?
Lipovetsky: É preciso lembrar que o luxo não é só moda e as empresas
precisam descobrir onde atuar. O Brasil poderia desenvolver uma rede hoteleira
de luxo mundial, por exemplo. Esse é um mercado que hoje movimenta 900 milhões
de pessoas por ano, mas somos mais de 6 bilhões e ainda há um potencial enorme,
inexplorado. Mas é preciso, além da qualidade dos serviços ou produtos, e
explorar a cultura e os artistas locais para fazer algo único e autêntico.
Afinal, globalização não é sinônimo de uniformização.
iG: Num momento em que o mercado é dominado
por grandes conglomerados, é possível uma marca de luxo sobreviver de forma
independente?
Lipovetsky: Com os grandes conglomerados os negócios de luxo passaram de
pequenas casas a gigantes globalizados, que têm metas e acionistas para quem
responder. Por isso, não podem correr o risco de escorregar. Assim, sobra o
espaço da ousadia, da diversidade e da criatividade para as pequenas marcas,
que ainda trabalham artesanalmente e atendem nichos de mercado. O problema é a
difusão da marca e a distribuição dos produtos, mas a internet também está
criando nossos caminhos para isso.
iG: O senhor acredita que o mercado de luxo,
antes tão arredio à internet, vá dar mais atenção à ela?
Lipovetsky: Com certeza. As marcas já viram que é absolutamente necessário
estar na rede e ter um site que valorize sua comunicação, apresente os
lançamentos e seja mais um canal de vendas a oferecer a mesma qualidade de uma
loja real. Já existem muitos produtos caros sendo vendidos pela internet. A
importância de estar em redes sociais ainda é um assunto nebuloso, mas pode-se
pensar em canais fechados para atender clientes especiais, que terão acesso a
produtos exclusivos e vendas privadas.
iG: Algumas aberturas de lojas de luxo em
países emergentes vêm sendo seguidas por filas gigantescas. Em São Paulo, até
mesmo grifes que não são consideradas de luxo, como a Sephora, viram o fenômeno
acontecer. Como o senhor avalia esse comportamento?
Lipovetsky: As pessoas estão viciadas em novidade, como se não fosse
possível viver sem isso. O consumo de luxo se tornou uma válvula de escape para
aplacar desilusões e frustrações. Quer-se comprar felicidade, mas só se
consegue uma satisfação passageira. Ao mesmo tempo, as marcas de luxo nunca
foram tão populares e valorizadas, contrariando quem dizia que a difusão
acabaria com o prestígio. Além disso, no Brasil, assim como na China, ainda
havia uma demanda reprimida. As pessoas querem conhecer os produtos, a loja, os
vendedores.
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