PEGADINHA GRAMATICAL
"Os três mosqueteiros com quem é preciso falar"...
"Os três mosqueteiros com quem é preciso falar para ser
ouvido no governo de Lula."
Essa frase esteve na capa de uma das mais vendidas revistas
semanais de informação do Brasil, veiculada há alguns anos. A inadequação
gramatical da frase já foi objeto de estudo em uma de nossas colunas. Nunca é
demais, porém, tratar desse assunto, tão complicado aos estudantes brasileiros.
Trata-se do uso de pronomes relativos. Vamos a eles:
Pronomes relativos (que, quem, qual, onde, quanto e cujo) são
elementos que retomam o vocábulo, a fim de evitar repetição. São usados em
período composto, ou seja, em períodos com mais de um verbo.
Para montar uma frase com pronome relativo, deve-se construir
a primeira oração até o elemento em repetição, colocar o pronome relativo para
substituir a palavra que seria repetida e, enfim, terminar a primeira oração.
Por exemplo:
"Oração 1: Os documentos foram pedidos pelo
diretor."
"Oração 2: Os documentos desapareceram."
Passo 1: Constrói-se a primeira oração até o elemento em
repetição: "Os documentos...";
Passo 2: Coloca-se o pronome relativo imediatamente após esse
elemento para substituir a palavra que seria repetida, juntamente com todos os
termos que formam a oração: "Os documentos que desapareceram..."
Passo 3: Termina-se a primeira oração: "Os documentos
que desapareceram foram pedidos pelo diretor".
Mais exemplos:
Oração 1: Encontrei os livros na Livraria Boa Leitura.
Oração 2: Os livros serão lidos pelos alunos a partir de hoje
à tarde.
Passo 1: Constrói-se a primeira oração até o elemento em
repetição: "Encontrei os livros...";
Passo 2: Coloca-se o pronome relativo imediatamente após esse
elemento para substituir a palavra que seria repetida, juntamente com todos os
termos que formam a oração: "Encontrei os livros que serão lidos pelos
alunos a partir de hoje à tarde..."
Passo 3: Termina-se a primeira oração: "Encontrei os
livros que serão lidos pelos alunos a partir de hoje à tarde na Livraria Boa
Leitura".
Agora vejamos a frase da revista:
Oração 1: Eis os três mosqueteiros.
Oração 2 e 3: É preciso falar com os três mosqueteiros para
ser ouvido no governo Lula.
Passo 1: Constrói-se a primeira oração até o elemento em
repetição: "Eis os três mosqueteiros...";
Passo 2: Coloca-se o pronome relativo imediatamente após esse
elemento para substituir a palavra que seria repetida, juntamente com todos os
termos que formam a oração: "Eis os três mosqueteiros que é preciso falar
para ser ouvido no governo Lula..."
Perceba que a preposição "com" da frase original
(falar com eles) desapareceu. Isso, porém, não poderia ocorrer. A preposição
que desaparecer ao estruturar a frase com pronome relativo deve ser colocada
imediatamente antes do pronome: "Eis os três mosqueteiros com que é
preciso falar para ser ouvido no governo Lula". Como se trata de pessoas,
pode-se usar, no lugar de "que", o pronome relativo "quem":
"Eis os três mosqueteiros com quem é preciso falar para ser ouvido no
governo Lula".
Passo 3: Terminar a primeira oração: Já está completa. A
revista porém não apresentou a parte "Eis os...". Retiremo-la, então:
"Os três mosqueteiros com quem é preciso falar para ser ouvido no governo
Lula".
O período agora está montado. Depois disso, é necessário
interpretar a frase para saber se há necessidade de usar vírgula. Se a oração
iniciada pelo pronome relativo for restritiva não se devem usar vírgulas. Caso
contrário, ou seja, se a oração não for restritiva, e sim explicativa, deve
estar entre vírgulas. Veja este exemplo:
1) Os trabalhadores que estão em greve terão o salário
reduzido.
2) Os trabalhadores, que estão em greve, terão o salário
reduzido.
A diferença entre 1 e 2 é a seguinte:
Em 1, a oração iniciada pelo pronome relativo (que estão em
greve) não está entre vírgulas, sendo, portanto, restritiva, ou seja, indica
que há, no mínimo, dois tipos de trabalhadores: os que estão em greve e os que
não estão, sendo que apenas os que estão em greve terão o salário reduzido.
Em 2, a oração iniciada pelo pronome relativo (que estão em
greve) está entre vírgulas, sendo, portanto, explicativa, ou seja, indica que
há apenas um tipo de trabalhador, que todos eles estão em greve e que todos
eles terão o salário reduzido.
Mais um exemplo:
1) Os partidos que apoiam o Presidente participarão da
reunião.
2) Os partidos, que apoiam o Presidente, participarão da
reunião.
A diferença entre 1 e 2 é a seguinte:
Em 1, a oração iniciada pelo pronome relativo (que apoiam o
Presidente) não está entre vírgulas, sendo, portanto, restritiva, ou seja,
indica que há, no mínimo, dois tipos de partidos: os que apoiam o Presidente e
os que não o apoiam, sendo que apenas os que o apoiam participarão da reunião.
Em 2, a oração iniciada pelo pronome relativo (que apoiam o
Presidente) está entre vírgulas, sendo, portanto, explicativa, ou seja, indica
que há apenas um tipo de partido, que todos eles apoiam o Presidente e que todos
eles participarão da reunião.
A frase da revista tem a oração iniciada pelo pronome
relativo sem vírgulas, indicando, então, que há, no mínimo, dois tipos de
mosqueteiros: aqueles com quem é preciso falar e aqueles com quem não é preciso
falar. Interpretando, porém, a frase, percebemos que há apenas um tipo de
mosqueteiro: os únicos "três mosqueteiros" de Lula com quem é preciso
falar, ou seja, não adianta falar com outras pessoas. A oração, portanto,
deveria estar separada por vírgula, ficando assim estruturada:
"Os três
mosqueteiros, com quem é preciso falar para ser ouvido no governo de
Lula."
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